Paraprosdokian (do Grego "παρα-", significando "além" e "προσδοκία", significando "expectativa") é uma figura de linguagem na qual a última parte da frase é uma surpresa, de tal forma que faz o leitor ou ouvinte refazer a primeira parte. É frequentemente usada para efeito humorístico ou dramático, às vezes produzindo um anticlimax. Por esta razão, é muito popular entre comediantes em suas sátiras. Veja alguns exemplos abaixo:
Ø Eu pedi a Deus uma bicicleta, mas eu sei que Deus não trabalha dessa forma. Por isso, eu roubei uma bicicleta e pedi perdão..
Ø Não discuta com um idiota. Ele vai arrastar você pro nível dele e derrotá-lo por ser experiente.
Ø A última coisa que eu quero é machucar você. Mas, isso ainda está na minha lista.
Ø A luz viaja mais rápido do que o som. É por isso que algumas pessoas parecem brilhantes até que você as ouve falando.
Ø Se eu concordar com você, estaremos nós dois errados.
Ø O pássaro que madruga apanha a minhoca, mas é o segundo rato que apanha o queijo.
Ø O Jornal da Noite é onde eles começam com um “Boa Noite” e continuam até provar que não é uma boa noite.
Ø Roubar idéias de uma pessoa é plágio. Roubar de muitas é pesquisa.
Ø Um banco é um lugar que vai lhe emprestar dinheiro, se você pode provar que não precisa desse empréstimo.
Ø Por que uma pessoa acredita em você quando você diz que existem quatro bilhões de estrelas, mas vai checar quando você diz que a tinta está fresca?
Ø Por que os Americanos escolhem entre apenas dois candidatos para presidente e entre 50 para Miss America?
Ø Por trás de todo homem bem sucedido está sua mulher. Por trás do fracasso desse mesmo homem bem sucedido está normalmente uma outra mulher.
Ø Procure sempre tomar dinheiro emprestado de um pessimista. Ele não vai esperar que você pague mesmo.
Ø Um diplomata é alguém que pode mandar você para o inferno de tal forma que você vai ficar ansioso pela viagem.
Ø Hospitalidade: fazer seus convidados se sentirem como se estivessem em suas próprias casas, mesmo sendo o que você mais gostaria.
Ø Eu era muito indeciso. Agora não tenho muita certeza.
Ø Você nunca é velho demais para aprender alguma coisa estúpida.
Ø Para ter certeza de atingir o alvo, atire primeiro e chame de alvo qualquer coisa que você tenha atingido.
Ø Algumas pessoas ouvem vozes. Outras vêem pessoas invisíveis. Outras não têm um pingo de imaginação.
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
domingo, 7 de novembro de 2010
A Tragédia Evitada
O meu cachorro Leco só corre ao redor da piscina no sentido anti-horário e isso me intrigava. Por que seria só no sentido anti-horário? Não que isso fosse importante, mas alguma coisa me dizia que poderia ser... E ainda ser muito mais importante do que uma descompromissada e leviana consideração sobre esse assunto pudesse levar a supor. Então, num belo dia, ao som de Oscar Peterson e inspirado pela terceira taça de um Cartuxa, tive um insight. Claro! Disse pra mim mesmo... Como não percebi isso antes? A resposta está na galáxia Andrômeda através dos seus vapores de tungstênio que provocam um refluxo endocósmico, que, já está provado, é o responsável pelo movimento de rotação do nosso planeta que, não por coincidência, é no sentido anti-horário. O dia e a noite, os fusos horários, o nosso bom humor, as cotações da bolsa e tantas coisas mais dependem visceralmente desses peremptórios vapores de tungstênio... Houve alguns dias em que estive tentado a fazer o meu cachorro mudar o sentido do seu rodopio... Agora, depois dessa constatação, fico apavorado só de pensar nas conseqüências que adviriam desse meu ato insano... Se eu forçasse o Leco a rodar no outro sentido, certamente terríveis catástrofes iriam acometer nosso planeta e, muito provavelmente, todo o nosso sistema solar. Eu iria me sentir muito mal se fosse eu o responsável por toda essa tragédia. Nunca iria me perdoar por isso. Mas, felizmente, eu me contive quanto aos meus impulsos naturais de contestar tudo o que se movimenta (com exceção do movimento dos quadris da mulata, é claro...) e deixei meu cachorro em paz em sua obstinação pelo anti-horário. Hoje continuo ouvindo Oscar Peterson e tomando um vinho mais barato (o Cartuxa não dá mais pra comprar...) e com a consciência tranqüila de não ter feito uma incomensurável besteira...
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
Acaba?
O amor acaba. Acaba pra todo mundo? Sim, pra todos, menos pro poeta. Talvez porque assim como um político vive de falcatruas, um engenheiro de projetos, um poeta precisa do amor pra continuar vivendo. Mas ele sofre mais, porque o seu verdadeiro combustível é o amor passado, que não deu certo. O amor presente é uma felicidade efêmera, que inevitavelmente dará lugar a uma tristeza futura... E é disso que ele se alimenta... E quem é que não tem um pouco de poeta dentro de si?
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Reflexões Sobre Os Sexagerários
O que mais lemos na internet é incentivo a valorizar a vida, a superar os problemas, a ter uma atitude otimista, a, mais que tudo, entender que a vida é uma só e que, portanto, devemos batalhar contra os problemas que todos temos... É correto, poético, econômico, ecológico, pragmático e mais duzentos e setenta e quatro adjetivos alinhados. Mas, sem querer ser lúgubre e dramático, não valeria a pena pelo menos colocar como contraponto o inverso? Pelo menos, pra reforçar a corrente otimista a favor de preservar a vida a qualquer custo? É muito mais fácil defender a preservação da vida a qualquer custo, com base na religião, nos valores convencionais da sociedade, na "moralidade", etc, do que colocar em discussão se não deveria existir um preço aceitável. Um sofrimento físico, mental ou moral, não poderia ser um limite para o proprietário da vida decidir sobre o que fazer com ela? É claro que não tenho uma posição a defender e muito menos a pretenção de ter argumentos diante dessa mais complexa de todas as equações pessoais... Mas, entre uma taça de vinho e a próxima, vou desenvolvendo a minha solução...
domingo, 26 de setembro de 2010
Aconteceu numa cidadezinha do interior
Estapafúrdio era o seu nome. Vivia chafurdando na lama da politicagem em busca de mais um voto de algum iconoclasta que estivesse absorto em suas peremptórias metabolizações e que, assim, não lhe negaria o tal voto. Também se interessava pelo voto dos fariseus, judeus, filisteus e até de Deus, se fosse possível. Seu propósito, se eleito, era obsceno: mentir sobre tudo, desde a intermediação de paz ou guerra entre nações até o agendamento de turismo cósmico. Dessa forma criaria uma imagem de si mesmo que o próprio espelho se recusaria a refletir.
Chegou o dia da votação. Voto ou veto? O povo decidiria pelo pior certamente, como sempre acontecera. Assim Estapafúrdio esperava ser eleito, mas antes da abertura da urna eletrônica uma bala desgovernada alojou-se no seu joelho esquerdo. Seria um aviso? Uma ameaça? Corre-corre pra cá, corre-corre pra lá, ambulância, sindicância, protuberância dos gorilas de plantão, etc. Mas nada da verdade aparecer. Aturdido, Estapafúrdio conjecturou que seu joelho era mais importante do que o Oriente Médio e, assim, renunciou à sua candidatura. Mas a grande contradição foi que sua votação fora esmagadora, votos agora jogados ao léu, creditados a ninguém. A comoção foi avassaladora, a tristeza insuportável. Até que uma rodada de cachaça trouxe tudo à normalidade novamente...
Chegou o dia da votação. Voto ou veto? O povo decidiria pelo pior certamente, como sempre acontecera. Assim Estapafúrdio esperava ser eleito, mas antes da abertura da urna eletrônica uma bala desgovernada alojou-se no seu joelho esquerdo. Seria um aviso? Uma ameaça? Corre-corre pra cá, corre-corre pra lá, ambulância, sindicância, protuberância dos gorilas de plantão, etc. Mas nada da verdade aparecer. Aturdido, Estapafúrdio conjecturou que seu joelho era mais importante do que o Oriente Médio e, assim, renunciou à sua candidatura. Mas a grande contradição foi que sua votação fora esmagadora, votos agora jogados ao léu, creditados a ninguém. A comoção foi avassaladora, a tristeza insuportável. Até que uma rodada de cachaça trouxe tudo à normalidade novamente...
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
Sonetinho Sem Vergonha
Do abutre as vísceras solapadas,
Pois muito tempo o tédio ruminara,
Exortaram a hóstia inacabada
Que no vil templo Apolo sepultara
E do cume a cósmica visão
Que Helena impingira ao sacripanta
Do dino povo fornica a razão
E a dor semeia, e a desgraça planta
Por mais maldito do medo, o grilhão
Aos torpes sábios a fome arrebata
Quando a virgem do ventre o embrião
Extirpa, descoberta a fronte e a pata,
Enquanto o genocídio ao sacro pão
O profeta ergue e o palhaço mata...
Pois muito tempo o tédio ruminara,
Exortaram a hóstia inacabada
Que no vil templo Apolo sepultara
E do cume a cósmica visão
Que Helena impingira ao sacripanta
Do dino povo fornica a razão
E a dor semeia, e a desgraça planta
Por mais maldito do medo, o grilhão
Aos torpes sábios a fome arrebata
Quando a virgem do ventre o embrião
Extirpa, descoberta a fronte e a pata,
Enquanto o genocídio ao sacro pão
O profeta ergue e o palhaço mata...
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Fuso Horário
Esta história eu escrevi em parceria com meu inesquecível amigo Aguiar (iniciativa e maior participação dele)
Hoje se inicia a história triste e insignificante do garoto chamado Fuso Horário.
Num local não muito distante, entre as relvas e os alfaces floridos vivia Joaquim com sua esposa Loreta, que, por não terem antena parabólica, praticavam o coito com assiduidade. Num belo dia de outono, no quarto ou quinto coito um espermatozóide conseguiu insuflar um óvulo que deu origem ao garoto Fuso Horário. Embora os metafísicos da época e também os fodafísicos tentassem descobrir o porquê de nome tão estapafúrdio, à conclusão nenhuma chegaram, mesmo por que, os ...físicos nunca chegam a conclusão alguma. Então, Loreta adormeceu. Não foi novidade nenhuma, por que Loreta adormecia e roncava todo dia na hora da novela. Fuso Horário, já com onze anos de vida disse: —“Não é todo mundo que consegue dormir tendo um Fuso Horário de onze anos!!! ” Seu pai, carrancudo, tirou o capacete e arrotou, como sempre fazia ao ouvir a voz do filho. E, assim, entre um arroto e um ronco, seguia sua vida sem lá, nem cá, até que numa tarde, depois do banho, ouviu um ruído estranho no quintal.
Era Timex, o deus do tempo, das horas e das oras. Fuso, aturdido, perguntou: —“ Que hora são?” — “ Oras, respondeu Timex, é hora de você se tornar o pai de seu neto, numa justa insubordinação contra o rodar da Terra e de seus fusos impositivos.” Fuso num instante recuperou séculos de subserviência e percebeu afinal que jamais seria um autêntico anti-horário. Enfim conscientizado (após onze anos de inútil iniquidade) e revoltado, voltou para a sala e bradou para o gestor dos espermatozóides transientes: —“ Tu, que já foste o ejaculador das horas vagas, haverás de me ceder a irmã de tua tia para que, de uma efêmera orgia, se projete aquele que, embora nunca tenha sido, algum dia será.”
Aquilo não era uma ameaça. Era muito mais terrível. Mas, na hora agá, após o arroto de seu pai, tocou o telefone...
Numa casa assobradada, cercada de nabiscos e rapapés, nas imediações do Cenáculo morava uma mulher de meia idade, que, embora tivesse três orelhas, poderia ser considerada linda. Seu porte atlético, seus seios rígidos, suas bochechas gulosas e aquelas pernas roliças prenunciavam maravilhas. Na verdade, principalmente devido à umidade de suas partes íntimas, cantada em tom maior por Cavazin, o violeiro de plantão, não havia no bairro maior tesão. Desde que deixou de ser criança, muito cedo, Fuso arquitetava planos, retas e semi-planos visando o túrgido frescor molhado daquelas grutas. Porque Fuso sabia que, devido à sua natureza anti-horária e promiscuidade eterna, só seria um homem na certeza de uma grande mulher. E essa era a grande mulher, uma mulher de três orelhas para lamber. Não havia grandes planos. A natureza impedia a transfusão imediata de pensamentos. Infelizmente, porém, Fuso sabia que sempre se transformava em outro ser na hora sublime da conquista.
Certa vez, transmudado em ator de teatro, aparentando cerca de 30 anos, conseguiu se aproximar de sua amada e criar um romance, graças a um jantar à luz de velas com violinos ao fundo. O próximo passo seria a casa assobradada! Era uma questão de instantes. No entanto, a força de Timex se fez presente e, paulatinamente Fuso, de ator, foi se transformando numa drag-queen polonesa. Com o sangue subindo para as bochechas, a fêmea universal vomitou o macarrão e deixou Fuso sozinho. Drag-Fuso, abestalhado questionava:
—“ Oh, por que isso só acontece comigo?” Timex sabia.
A ambigüidade também tem a sua lógica. Os acontecimentos funestos que acometiam Fuso eram tão rápidos e certeiros, que a languidez atávica e mórbida dos onze anos anteriores deu lugar a um inferno sem precedentes. Timex era de fato um deus, ou era o próprio diabo? Protegia ou destruía? Fuso era algoz e vítima ao mesmo tempo de sua alma sacaneada. À deriva, chafurdava pelos buracos, confundindo tudo. Já imaginava Timex com três orelhas e a dama da casa assobradada prevaricando com Lenin ou Stalin. E as suas outras obsessões? Seu pai, por exemplo, que haveria de provar uma estocada espermatozóica... E a antena parabólica? E aquele telefonema sinistro ainda sem qualquer explicação?!? Estava caminhando como em um cult movie pelas trevas molhadas de uma mega metrópole qualquer, por entre replicantes, suspirando —“que merda, que merda...”, quando de repente estancou. Seus olhos adquiriram um brilho tão forte, tão explosivo, que a noite quase virou dia. Deu um poderoso murro no ar e exclamou com violência: —“ CACETE! POR QUE NÃO PENSEI NISSO ANTES ? ”
Um sacerdote beneditino que por ali passava, estupefato, pensou: “A lógica é ambígua.”
Antes de atender ao telefone tomou um gole de alcachofra. Era seu vício. Nunca conseguia fazer nada sem antes tomar um gole. Porém, naquela noite de abril sabia que um gole era pouco! Tomou vários goles. E o telefone tocava. Então, a secretária eletrônica atendeu e disse: —“ Não podemos atender neste momento. Quando ouvir o sinal deixe o seu ... ”. Neste exato momento Fuso pegou o fone e disse: —“ Alô! ”. Foi um alô trágico, porque ele sabia que, um dia, essa ligação deveria acontecer! Do outro lado da linha, empunhando um celular, estava o óbvio, o possivelmente claro... O Fuso Anti-horário!!! Embora evitasse pensar no assunto, sabia que essa ligação era questão de tempo. Velhos alfarrábios e rabos alfas sempre registraram a tese de que, quando o fuso-horário se encontra com o fuso anti-horário só pode acontecer o singelo: Um dos dois sobreviverá e se transformará num ser normal: desempregado, cheio de dívidas, casado, com dois filhos, tendo que tomar banho no inverno, e o pior de tudo, com grande possibilidade de acabar sua cerveja às dez da noite de sábado. Evitou Fuso-horário sempre esse encontro, mas, agora sabia que nada poderia fazer, principalmente por que a resposta que ouviu do outro lado da linha foi: —“ Quem fala?”
Não havia tempo a perder. Saiu. Seu plano, não só era ótimo, como era o único. Sôfrego, pisoteou o sacerdote beneditino sem se dar conta. —“ Ou é ele, ou eu. Ou são eles ou eu” - não parava de pensar. Era vida ou morte, era a inexistência passada e futura ou a conquista da tão desejada mediocridade. Enquanto corria para o orelhão, repassava freneticamente os detalhes de seu plano diabólico. Discou. Ao reconhecer a voz de Timex, foi logo dizendo: —“A dama do assobradado tá na maior onda e, pra judiar de mim, diz que só vai dar pra mim se eu crescer e tem que ser agora, meia hora no máximo”... Timex ouvia com o ódio de sempre, murmurando:
— “Dane-se...”, mas não esperava (e, por isso, estava meio indefeso) o que o paspalho do Fuso iria dizer. —“ Seguinte, ô Timex: por que você não se disfarça de mim, mais crescido é claro, vai lá e dá uma bela duma trepada com a madame?”. —“ Por que não? ”, pensou Timex, incandescente de paixão. —“ Já to indo ”, vociferou Timex e desligou na fuça de Fuso.
Sem perder um segundo, Fuso fez mais uma ligação... Ah,e em seguida ligou também pra dama do assobradado e disse: —“ Saia pra rua em 30 minutos e você vai conhecer um príncipe de três línguas, uma para cada uma de suas orelhas ”. A dama, zombou do paspalho e disse —“ Por que não? ”
Aqueles 30 minutos foram uma eternidade. Mas, foi chegando e chegando a hora. Lá estava ela, a dama no portão do assobradado, exalando um irresistível aroma bacalhaônico de seu sexo dolorido pela espera. Afoito, feito oito num biscoito, chegou Timex, lambuzado de indizíveis obscenidades. A dama achou que era o tal príncipe de três línguas e foi logo abrindo todos os poros e buracos. Ao sacerdote beneditino que, recuperado e por acaso presenciando a cena, parecia um caso de explosão de amor...
O sacerdote até que não errou muito. Bem na hora, mas, bem na hora mesmo em que Timex ia dar um estrondoso amasso, surgiu das trevas...
Nota do tradutor: O senhor (ou senhora) percebeu, caro leitor (ou leitora), que depois de telefonar para Timex e antes da ligação para a dama, houve outra e sinistra ligação? Se sim, parabéns. Se não, o senhor (ou senhora) é muito burro (ou burra).
...surgiu das trevas o Fuso Anti-Horário! Foi uma explosão tão forte de partículas e anti-partículas, que ninguém sobrou, nem o pobre sacerdote abelhudo e fofoqueiro, embora beneditino...
O plano deu certo! Fuso, feliz da vida voltou pra casa e não achou nenhuma cerveja na geladeira.
Hoje se inicia a história triste e insignificante do garoto chamado Fuso Horário.
Capítulo I
Num local não muito distante, entre as relvas e os alfaces floridos vivia Joaquim com sua esposa Loreta, que, por não terem antena parabólica, praticavam o coito com assiduidade. Num belo dia de outono, no quarto ou quinto coito um espermatozóide conseguiu insuflar um óvulo que deu origem ao garoto Fuso Horário. Embora os metafísicos da época e também os fodafísicos tentassem descobrir o porquê de nome tão estapafúrdio, à conclusão nenhuma chegaram, mesmo por que, os ...físicos nunca chegam a conclusão alguma. Então, Loreta adormeceu. Não foi novidade nenhuma, por que Loreta adormecia e roncava todo dia na hora da novela. Fuso Horário, já com onze anos de vida disse: —“Não é todo mundo que consegue dormir tendo um Fuso Horário de onze anos!!! ” Seu pai, carrancudo, tirou o capacete e arrotou, como sempre fazia ao ouvir a voz do filho. E, assim, entre um arroto e um ronco, seguia sua vida sem lá, nem cá, até que numa tarde, depois do banho, ouviu um ruído estranho no quintal.
Era Timex, o deus do tempo, das horas e das oras. Fuso, aturdido, perguntou: —“ Que hora são?” — “ Oras, respondeu Timex, é hora de você se tornar o pai de seu neto, numa justa insubordinação contra o rodar da Terra e de seus fusos impositivos.” Fuso num instante recuperou séculos de subserviência e percebeu afinal que jamais seria um autêntico anti-horário. Enfim conscientizado (após onze anos de inútil iniquidade) e revoltado, voltou para a sala e bradou para o gestor dos espermatozóides transientes: —“ Tu, que já foste o ejaculador das horas vagas, haverás de me ceder a irmã de tua tia para que, de uma efêmera orgia, se projete aquele que, embora nunca tenha sido, algum dia será.”
Aquilo não era uma ameaça. Era muito mais terrível. Mas, na hora agá, após o arroto de seu pai, tocou o telefone...
Capítulo II
Numa casa assobradada, cercada de nabiscos e rapapés, nas imediações do Cenáculo morava uma mulher de meia idade, que, embora tivesse três orelhas, poderia ser considerada linda. Seu porte atlético, seus seios rígidos, suas bochechas gulosas e aquelas pernas roliças prenunciavam maravilhas. Na verdade, principalmente devido à umidade de suas partes íntimas, cantada em tom maior por Cavazin, o violeiro de plantão, não havia no bairro maior tesão. Desde que deixou de ser criança, muito cedo, Fuso arquitetava planos, retas e semi-planos visando o túrgido frescor molhado daquelas grutas. Porque Fuso sabia que, devido à sua natureza anti-horária e promiscuidade eterna, só seria um homem na certeza de uma grande mulher. E essa era a grande mulher, uma mulher de três orelhas para lamber. Não havia grandes planos. A natureza impedia a transfusão imediata de pensamentos. Infelizmente, porém, Fuso sabia que sempre se transformava em outro ser na hora sublime da conquista.
Certa vez, transmudado em ator de teatro, aparentando cerca de 30 anos, conseguiu se aproximar de sua amada e criar um romance, graças a um jantar à luz de velas com violinos ao fundo. O próximo passo seria a casa assobradada! Era uma questão de instantes. No entanto, a força de Timex se fez presente e, paulatinamente Fuso, de ator, foi se transformando numa drag-queen polonesa. Com o sangue subindo para as bochechas, a fêmea universal vomitou o macarrão e deixou Fuso sozinho. Drag-Fuso, abestalhado questionava:
—“ Oh, por que isso só acontece comigo?” Timex sabia.
A ambigüidade também tem a sua lógica. Os acontecimentos funestos que acometiam Fuso eram tão rápidos e certeiros, que a languidez atávica e mórbida dos onze anos anteriores deu lugar a um inferno sem precedentes. Timex era de fato um deus, ou era o próprio diabo? Protegia ou destruía? Fuso era algoz e vítima ao mesmo tempo de sua alma sacaneada. À deriva, chafurdava pelos buracos, confundindo tudo. Já imaginava Timex com três orelhas e a dama da casa assobradada prevaricando com Lenin ou Stalin. E as suas outras obsessões? Seu pai, por exemplo, que haveria de provar uma estocada espermatozóica... E a antena parabólica? E aquele telefonema sinistro ainda sem qualquer explicação?!? Estava caminhando como em um cult movie pelas trevas molhadas de uma mega metrópole qualquer, por entre replicantes, suspirando —“que merda, que merda...”, quando de repente estancou. Seus olhos adquiriram um brilho tão forte, tão explosivo, que a noite quase virou dia. Deu um poderoso murro no ar e exclamou com violência: —“ CACETE! POR QUE NÃO PENSEI NISSO ANTES ? ”
Um sacerdote beneditino que por ali passava, estupefato, pensou: “A lógica é ambígua.”
Capítulo III
Antes de atender ao telefone tomou um gole de alcachofra. Era seu vício. Nunca conseguia fazer nada sem antes tomar um gole. Porém, naquela noite de abril sabia que um gole era pouco! Tomou vários goles. E o telefone tocava. Então, a secretária eletrônica atendeu e disse: —“ Não podemos atender neste momento. Quando ouvir o sinal deixe o seu ... ”. Neste exato momento Fuso pegou o fone e disse: —“ Alô! ”. Foi um alô trágico, porque ele sabia que, um dia, essa ligação deveria acontecer! Do outro lado da linha, empunhando um celular, estava o óbvio, o possivelmente claro... O Fuso Anti-horário!!! Embora evitasse pensar no assunto, sabia que essa ligação era questão de tempo. Velhos alfarrábios e rabos alfas sempre registraram a tese de que, quando o fuso-horário se encontra com o fuso anti-horário só pode acontecer o singelo: Um dos dois sobreviverá e se transformará num ser normal: desempregado, cheio de dívidas, casado, com dois filhos, tendo que tomar banho no inverno, e o pior de tudo, com grande possibilidade de acabar sua cerveja às dez da noite de sábado. Evitou Fuso-horário sempre esse encontro, mas, agora sabia que nada poderia fazer, principalmente por que a resposta que ouviu do outro lado da linha foi: —“ Quem fala?”
Não havia tempo a perder. Saiu. Seu plano, não só era ótimo, como era o único. Sôfrego, pisoteou o sacerdote beneditino sem se dar conta. —“ Ou é ele, ou eu. Ou são eles ou eu” - não parava de pensar. Era vida ou morte, era a inexistência passada e futura ou a conquista da tão desejada mediocridade. Enquanto corria para o orelhão, repassava freneticamente os detalhes de seu plano diabólico. Discou. Ao reconhecer a voz de Timex, foi logo dizendo: —“A dama do assobradado tá na maior onda e, pra judiar de mim, diz que só vai dar pra mim se eu crescer e tem que ser agora, meia hora no máximo”... Timex ouvia com o ódio de sempre, murmurando:
— “Dane-se...”, mas não esperava (e, por isso, estava meio indefeso) o que o paspalho do Fuso iria dizer. —“ Seguinte, ô Timex: por que você não se disfarça de mim, mais crescido é claro, vai lá e dá uma bela duma trepada com a madame?”. —“ Por que não? ”, pensou Timex, incandescente de paixão. —“ Já to indo ”, vociferou Timex e desligou na fuça de Fuso.
Sem perder um segundo, Fuso fez mais uma ligação... Ah,e em seguida ligou também pra dama do assobradado e disse: —“ Saia pra rua em 30 minutos e você vai conhecer um príncipe de três línguas, uma para cada uma de suas orelhas ”. A dama, zombou do paspalho e disse —“ Por que não? ”
Aqueles 30 minutos foram uma eternidade. Mas, foi chegando e chegando a hora. Lá estava ela, a dama no portão do assobradado, exalando um irresistível aroma bacalhaônico de seu sexo dolorido pela espera. Afoito, feito oito num biscoito, chegou Timex, lambuzado de indizíveis obscenidades. A dama achou que era o tal príncipe de três línguas e foi logo abrindo todos os poros e buracos. Ao sacerdote beneditino que, recuperado e por acaso presenciando a cena, parecia um caso de explosão de amor...
O sacerdote até que não errou muito. Bem na hora, mas, bem na hora mesmo em que Timex ia dar um estrondoso amasso, surgiu das trevas...
Nota do tradutor: O senhor (ou senhora) percebeu, caro leitor (ou leitora), que depois de telefonar para Timex e antes da ligação para a dama, houve outra e sinistra ligação? Se sim, parabéns. Se não, o senhor (ou senhora) é muito burro (ou burra).
...surgiu das trevas o Fuso Anti-Horário! Foi uma explosão tão forte de partículas e anti-partículas, que ninguém sobrou, nem o pobre sacerdote abelhudo e fofoqueiro, embora beneditino...
O plano deu certo! Fuso, feliz da vida voltou pra casa e não achou nenhuma cerveja na geladeira.
FIM
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Economês
Octacílio
Ele era um cara brilhante em vários aspectos, principalmente nos profissionais, mas anormal e infeliz em muitos outros, com ênfase no relacionamento com as pessoas. Com as mulheres, então, era um fracasso total. Vivia cercado de elogios e de importantes remunerações no mercado financeiro, mas era uma fossa só em sua intimidade. Octacílio formou-se em economia na FGV, mas a partir de seu diploma algo muito incomum lhe aconteceu. Apesar de muito inteligente, sua linguagem em tudo no dia a dia não era mais o Português, nem qualquer outro idioma... era o “Economês”... Discursava com desenvoltura em seu ambiente de trabalho, mas vivia atormentado e frustrado em relação às mulheres principalmente. A ponto de não ter grandes ambições nesse campo... Precisava deixar de ser virgem (e já estava com seus 36 anos) e isso era a sua obsessão. Morava num excelente apartamento e da varanda avistava o apartamento vizinho onde morava uma senhora de uns 70 anos, devidamente assistida por sua empregada de uns 20 e poucos anos. Avistava a varanda e principalmente a empregada. Foi se enchendo de uma incontrolável paixão por ela, até que em um belo dia não agüentou mais e foi esperá-la na saída do prédio. E no caminho até o ponto de ônibus, num repente de coragem alcançou-a e iniciou a seguinte abordagem:
Ele: Com licença, senhorita, eu gostaria de estabelecer uma ação preferencial com você.
Ela: Não entendi. O senhor não é aquele vizinho doido da senhora Gertrudes?
Ele: Talvez. O mercado é volátil e é o momento de investir em commodities.
Ela: O senhor deve ser doido mesmo...
Ele: Podemos sair pelo menos pra uma ação ordinária...
Ela: Ordinária é a sua mãe...
Ele: Mas eu estou comprometido com você. Vejo seu comportamento oscilante quando caminha e fico louco de vontade de fazer um derivativo cambial com você. Por favor, entenda meu déficit orçamentário.
Ela: Eu entendo que o senhor é maluco mesmo...
Ele: Por favor, confie em mim. Vamos aplicar no mercado futuro e poderemos obter dividendos a médio e longo prazos.
Ela: Olha aqui. Meu ônibus tá pra chegar e tem um monte de gente no ponto. Acho bom o senhor parar de me encher o saco.
Ele: Mas, que posso fazer se sou louco pelo seu PIB e pela sua taxa Selic? Eu queria tanto levar você pra Bovespa, de onde se tem uma linda visão do mercado futuro e poderíamos, depois de alguma negociação, fazer um swap reverso...
Ela: (deu-lhe um tremendo tabefe na cara...) Olhe aqui, vai fazer esse negócio com as suas negas. (e fugiu correndo pra dentro do ônibus).
A partir desse dia, Octacílio percebeu que sua vida estava numa irrecuperável depressão cambial, quero dizer, numa fossa maluca e reagiu! Mandou seu chefe e seu emprego na maior corretora de valores do Brasil pra aquele lugar. Fez um estágio de 3 meses num bordel de excelente reputação na cidade e reaprendeu a falar Português. Mudou-se pra Ubatuba, virou pescador, casou-se com uma vendedora ambulante de casquinha de siri, teve 4 filhos e foi feliz pro resto da vida...
Ele era um cara brilhante em vários aspectos, principalmente nos profissionais, mas anormal e infeliz em muitos outros, com ênfase no relacionamento com as pessoas. Com as mulheres, então, era um fracasso total. Vivia cercado de elogios e de importantes remunerações no mercado financeiro, mas era uma fossa só em sua intimidade. Octacílio formou-se em economia na FGV, mas a partir de seu diploma algo muito incomum lhe aconteceu. Apesar de muito inteligente, sua linguagem em tudo no dia a dia não era mais o Português, nem qualquer outro idioma... era o “Economês”... Discursava com desenvoltura em seu ambiente de trabalho, mas vivia atormentado e frustrado em relação às mulheres principalmente. A ponto de não ter grandes ambições nesse campo... Precisava deixar de ser virgem (e já estava com seus 36 anos) e isso era a sua obsessão. Morava num excelente apartamento e da varanda avistava o apartamento vizinho onde morava uma senhora de uns 70 anos, devidamente assistida por sua empregada de uns 20 e poucos anos. Avistava a varanda e principalmente a empregada. Foi se enchendo de uma incontrolável paixão por ela, até que em um belo dia não agüentou mais e foi esperá-la na saída do prédio. E no caminho até o ponto de ônibus, num repente de coragem alcançou-a e iniciou a seguinte abordagem:
Ele: Com licença, senhorita, eu gostaria de estabelecer uma ação preferencial com você.
Ela: Não entendi. O senhor não é aquele vizinho doido da senhora Gertrudes?
Ele: Talvez. O mercado é volátil e é o momento de investir em commodities.
Ela: O senhor deve ser doido mesmo...
Ele: Podemos sair pelo menos pra uma ação ordinária...
Ela: Ordinária é a sua mãe...
Ele: Mas eu estou comprometido com você. Vejo seu comportamento oscilante quando caminha e fico louco de vontade de fazer um derivativo cambial com você. Por favor, entenda meu déficit orçamentário.
Ela: Eu entendo que o senhor é maluco mesmo...
Ele: Por favor, confie em mim. Vamos aplicar no mercado futuro e poderemos obter dividendos a médio e longo prazos.
Ela: Olha aqui. Meu ônibus tá pra chegar e tem um monte de gente no ponto. Acho bom o senhor parar de me encher o saco.
Ele: Mas, que posso fazer se sou louco pelo seu PIB e pela sua taxa Selic? Eu queria tanto levar você pra Bovespa, de onde se tem uma linda visão do mercado futuro e poderíamos, depois de alguma negociação, fazer um swap reverso...
Ela: (deu-lhe um tremendo tabefe na cara...) Olhe aqui, vai fazer esse negócio com as suas negas. (e fugiu correndo pra dentro do ônibus).
A partir desse dia, Octacílio percebeu que sua vida estava numa irrecuperável depressão cambial, quero dizer, numa fossa maluca e reagiu! Mandou seu chefe e seu emprego na maior corretora de valores do Brasil pra aquele lugar. Fez um estágio de 3 meses num bordel de excelente reputação na cidade e reaprendeu a falar Português. Mudou-se pra Ubatuba, virou pescador, casou-se com uma vendedora ambulante de casquinha de siri, teve 4 filhos e foi feliz pro resto da vida...
terça-feira, 27 de julho de 2010
Bem Vindo
Se você gosta de jazz, bebop, baladas, eis aqui um blog pra se trocar idéias e músicas (mp3). Eu, por exemplo, tenho várias gravações de Body and Soul que poderia ceder aos interessados. Citei essa, mas tenho mais de mil outras...
Como uma amostra, seguem algumas preciosidades:
http://www.youtube.com/watch?v=ZENMMaG0BjU
http://www.youtube.com/watch?v=rU-R-ktyMFk&NR=1&feature=fvwp
http://www.youtube.com/watch?v=JpjKExBX0Ho
http://www.youtube.com/watch?v=i7ktgyt3OTo
Além de jazz, gosto também de xadrez e cinema.
Outra coisa, aprecio também uma brincadeira de escrever crônicas "non sense", cômicas, sem pé nem cabeça, só pra diversão...
Ah, outra coisa, sou um beberrão de vinho, mas sem sofisticação... Não tenho dinheiro pra ir além dos "reserva" chilenos...
Bem vindo ao meu blog
Como uma amostra, seguem algumas preciosidades:
http://www.youtube.com/watch?v=ZENMMaG0BjU
http://www.youtube.com/watch?v=rU-R-ktyMFk&NR=1&feature=fvwp
http://www.youtube.com/watch?v=JpjKExBX0Ho
http://www.youtube.com/watch?v=i7ktgyt3OTo
Além de jazz, gosto também de xadrez e cinema.
Outra coisa, aprecio também uma brincadeira de escrever crônicas "non sense", cômicas, sem pé nem cabeça, só pra diversão...
Ah, outra coisa, sou um beberrão de vinho, mas sem sofisticação... Não tenho dinheiro pra ir além dos "reserva" chilenos...
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