Hoje se inicia a história triste e insignificante do garoto chamado Fuso Horário.
Capítulo I
Num local não muito distante, entre as relvas e os alfaces floridos vivia Joaquim com sua esposa Loreta, que, por não terem antena parabólica, praticavam o coito com assiduidade. Num belo dia de outono, no quarto ou quinto coito um espermatozóide conseguiu insuflar um óvulo que deu origem ao garoto Fuso Horário. Embora os metafísicos da época e também os fodafísicos tentassem descobrir o porquê de nome tão estapafúrdio, à conclusão nenhuma chegaram, mesmo por que, os ...físicos nunca chegam a conclusão alguma. Então, Loreta adormeceu. Não foi novidade nenhuma, por que Loreta adormecia e roncava todo dia na hora da novela. Fuso Horário, já com onze anos de vida disse: —“Não é todo mundo que consegue dormir tendo um Fuso Horário de onze anos!!! ” Seu pai, carrancudo, tirou o capacete e arrotou, como sempre fazia ao ouvir a voz do filho. E, assim, entre um arroto e um ronco, seguia sua vida sem lá, nem cá, até que numa tarde, depois do banho, ouviu um ruído estranho no quintal.
Era Timex, o deus do tempo, das horas e das oras. Fuso, aturdido, perguntou: —“ Que hora são?” — “ Oras, respondeu Timex, é hora de você se tornar o pai de seu neto, numa justa insubordinação contra o rodar da Terra e de seus fusos impositivos.” Fuso num instante recuperou séculos de subserviência e percebeu afinal que jamais seria um autêntico anti-horário. Enfim conscientizado (após onze anos de inútil iniquidade) e revoltado, voltou para a sala e bradou para o gestor dos espermatozóides transientes: —“ Tu, que já foste o ejaculador das horas vagas, haverás de me ceder a irmã de tua tia para que, de uma efêmera orgia, se projete aquele que, embora nunca tenha sido, algum dia será.”
Aquilo não era uma ameaça. Era muito mais terrível. Mas, na hora agá, após o arroto de seu pai, tocou o telefone...
Capítulo II
Numa casa assobradada, cercada de nabiscos e rapapés, nas imediações do Cenáculo morava uma mulher de meia idade, que, embora tivesse três orelhas, poderia ser considerada linda. Seu porte atlético, seus seios rígidos, suas bochechas gulosas e aquelas pernas roliças prenunciavam maravilhas. Na verdade, principalmente devido à umidade de suas partes íntimas, cantada em tom maior por Cavazin, o violeiro de plantão, não havia no bairro maior tesão. Desde que deixou de ser criança, muito cedo, Fuso arquitetava planos, retas e semi-planos visando o túrgido frescor molhado daquelas grutas. Porque Fuso sabia que, devido à sua natureza anti-horária e promiscuidade eterna, só seria um homem na certeza de uma grande mulher. E essa era a grande mulher, uma mulher de três orelhas para lamber. Não havia grandes planos. A natureza impedia a transfusão imediata de pensamentos. Infelizmente, porém, Fuso sabia que sempre se transformava em outro ser na hora sublime da conquista.
Certa vez, transmudado em ator de teatro, aparentando cerca de 30 anos, conseguiu se aproximar de sua amada e criar um romance, graças a um jantar à luz de velas com violinos ao fundo. O próximo passo seria a casa assobradada! Era uma questão de instantes. No entanto, a força de Timex se fez presente e, paulatinamente Fuso, de ator, foi se transformando numa drag-queen polonesa. Com o sangue subindo para as bochechas, a fêmea universal vomitou o macarrão e deixou Fuso sozinho. Drag-Fuso, abestalhado questionava:
—“ Oh, por que isso só acontece comigo?” Timex sabia.
A ambigüidade também tem a sua lógica. Os acontecimentos funestos que acometiam Fuso eram tão rápidos e certeiros, que a languidez atávica e mórbida dos onze anos anteriores deu lugar a um inferno sem precedentes. Timex era de fato um deus, ou era o próprio diabo? Protegia ou destruía? Fuso era algoz e vítima ao mesmo tempo de sua alma sacaneada. À deriva, chafurdava pelos buracos, confundindo tudo. Já imaginava Timex com três orelhas e a dama da casa assobradada prevaricando com Lenin ou Stalin. E as suas outras obsessões? Seu pai, por exemplo, que haveria de provar uma estocada espermatozóica... E a antena parabólica? E aquele telefonema sinistro ainda sem qualquer explicação?!? Estava caminhando como em um cult movie pelas trevas molhadas de uma mega metrópole qualquer, por entre replicantes, suspirando —“que merda, que merda...”, quando de repente estancou. Seus olhos adquiriram um brilho tão forte, tão explosivo, que a noite quase virou dia. Deu um poderoso murro no ar e exclamou com violência: —“ CACETE! POR QUE NÃO PENSEI NISSO ANTES ? ”
Um sacerdote beneditino que por ali passava, estupefato, pensou: “A lógica é ambígua.”
Capítulo III
Antes de atender ao telefone tomou um gole de alcachofra. Era seu vício. Nunca conseguia fazer nada sem antes tomar um gole. Porém, naquela noite de abril sabia que um gole era pouco! Tomou vários goles. E o telefone tocava. Então, a secretária eletrônica atendeu e disse: —“ Não podemos atender neste momento. Quando ouvir o sinal deixe o seu ... ”. Neste exato momento Fuso pegou o fone e disse: —“ Alô! ”. Foi um alô trágico, porque ele sabia que, um dia, essa ligação deveria acontecer! Do outro lado da linha, empunhando um celular, estava o óbvio, o possivelmente claro... O Fuso Anti-horário!!! Embora evitasse pensar no assunto, sabia que essa ligação era questão de tempo. Velhos alfarrábios e rabos alfas sempre registraram a tese de que, quando o fuso-horário se encontra com o fuso anti-horário só pode acontecer o singelo: Um dos dois sobreviverá e se transformará num ser normal: desempregado, cheio de dívidas, casado, com dois filhos, tendo que tomar banho no inverno, e o pior de tudo, com grande possibilidade de acabar sua cerveja às dez da noite de sábado. Evitou Fuso-horário sempre esse encontro, mas, agora sabia que nada poderia fazer, principalmente por que a resposta que ouviu do outro lado da linha foi: —“ Quem fala?”
Não havia tempo a perder. Saiu. Seu plano, não só era ótimo, como era o único. Sôfrego, pisoteou o sacerdote beneditino sem se dar conta. —“ Ou é ele, ou eu. Ou são eles ou eu” - não parava de pensar. Era vida ou morte, era a inexistência passada e futura ou a conquista da tão desejada mediocridade. Enquanto corria para o orelhão, repassava freneticamente os detalhes de seu plano diabólico. Discou. Ao reconhecer a voz de Timex, foi logo dizendo: —“A dama do assobradado tá na maior onda e, pra judiar de mim, diz que só vai dar pra mim se eu crescer e tem que ser agora, meia hora no máximo”... Timex ouvia com o ódio de sempre, murmurando:
— “Dane-se...”, mas não esperava (e, por isso, estava meio indefeso) o que o paspalho do Fuso iria dizer. —“ Seguinte, ô Timex: por que você não se disfarça de mim, mais crescido é claro, vai lá e dá uma bela duma trepada com a madame?”. —“ Por que não? ”, pensou Timex, incandescente de paixão. —“ Já to indo ”, vociferou Timex e desligou na fuça de Fuso.
Sem perder um segundo, Fuso fez mais uma ligação... Ah,e em seguida ligou também pra dama do assobradado e disse: —“ Saia pra rua em 30 minutos e você vai conhecer um príncipe de três línguas, uma para cada uma de suas orelhas ”. A dama, zombou do paspalho e disse —“ Por que não? ”
Aqueles 30 minutos foram uma eternidade. Mas, foi chegando e chegando a hora. Lá estava ela, a dama no portão do assobradado, exalando um irresistível aroma bacalhaônico de seu sexo dolorido pela espera. Afoito, feito oito num biscoito, chegou Timex, lambuzado de indizíveis obscenidades. A dama achou que era o tal príncipe de três línguas e foi logo abrindo todos os poros e buracos. Ao sacerdote beneditino que, recuperado e por acaso presenciando a cena, parecia um caso de explosão de amor...
O sacerdote até que não errou muito. Bem na hora, mas, bem na hora mesmo em que Timex ia dar um estrondoso amasso, surgiu das trevas...
Nota do tradutor: O senhor (ou senhora) percebeu, caro leitor (ou leitora), que depois de telefonar para Timex e antes da ligação para a dama, houve outra e sinistra ligação? Se sim, parabéns. Se não, o senhor (ou senhora) é muito burro (ou burra).
...surgiu das trevas o Fuso Anti-Horário! Foi uma explosão tão forte de partículas e anti-partículas, que ninguém sobrou, nem o pobre sacerdote abelhudo e fofoqueiro, embora beneditino...
O plano deu certo! Fuso, feliz da vida voltou pra casa e não achou nenhuma cerveja na geladeira.
FIM
Ola caro Tonico, acho que sua cara metade deve dar as maos para a Dona Lucy e juntas exclamarem: Que ventura a nossa de ter a experiencia de conviver com maridos tao fora da bitola.
ResponderExcluirabracao
Ainda bem que me considero seu amigo, meu caro Tonico!
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